Feb 09, 2013 | Post by: hinerasky 2 Comments

O dia em que um morador de rua cuspiu na minha cara

Foto tirada minutos antes no viaduto Tiradentes (entre a Silva Só e a Mariante)
Era para ser frase de efeito. Assim como era para ser outro pacato sábado de Carnaval, depois que eu retornava da farmácia, a pé, pela Protásio Alves em direção ao meu bairro. Havia quase ninguém naquela avenida de Porto Alegre, que eu acho particularmente feia.

Quando eu estava atravessando uma das ruas, vinha em minha direção um morador de rua falando sozinho, com um saco nas costas. Ouvi quando ele disse alto, de repente:
- “A culpa é toda de vocês”.

Olhei para o lado e… ele me lançou uma cuspida no-jen-ta e forte no rosto, entre a bochecha e a lente do lado direito dos meus óculos. Deu tempo só de pensar e falar para mim mesma “QUE NOJO” (porque na hora eu não consegui nem falar), de puxar minha blusa em direção ao rosto e esfregar para tentar limpar.
Por 30 segundos eu andei e achei que fosse cair. Sério. Queria falar com alguém, chorar, sei lá. Parei e me escorei em frente a uma loja fechada, me olhando pelo reflexo, porque sentia como se estivesse toda cuspida. Suava frio. Acho que estava mais branca do que já sou. Uma mulher parou do meu lado, olhou a vitrine, não percebeu nada. Tive o impulso de contar. De dizer: “a senhora tem noção o que é o nosso país?”

Eu me senti um NADA.
Fui devastada por aquela sensação de impotência, tipo quando a gente é assaltado. Se você já o foi, sabe do que eu estou falando.

Impotência diante do mundo, diante das injustiças e desigualdades do nosso país. Essa frase: “A culpa é toda de vocês”, que o mendigo reivindicou, ecoou na minha cabeça até sair do banho. E continua.
Um cidadão injustiçado não precisa sair cuspindo em outros, que não conhece e que não têm culpa completa pelo fato de ele estar ali, sofrendo. Pessoas que como eu e você, que dos doze meses por ano que trabalham, quatro deles são para impostos retidos para fazer o país andar (e o quê?). Fora tantas outras pessoas que conheço que nem têm trabalho fixo, estão se virando. Nem por isso estão na marginalidade, nem agredindo quem está (supostamente) em vantagem.

Ok, ele pode não ter tido estrutura familiar, equilíbrio emocional. E agora está perturbado e já doente pela situação em que se encontra, possivelmente há anos. OK, OK, OK. Entendo a raiva dele. Mas não justifica fazer dos demais culpados. Agora estou com a mesma parcela de raiva que aquele cara, porém. Ou até mais.

E cada vez que meu estômago embrulha, é de raiva. Não de nojo, apenas.
Raiva por cada empresa que sonega, por cada político corrupto, por cada promessa eleitoral não cumprida, por Alvarás impróprios, por falta de fiscalização, pela omissão do Estado na responsabilidade que lhe cabe. Por Renans Calheiros acusados e condenados (por corrupção passiva e formação de quadrilha) que voltam e assumem cargos do alto escalão.Tenho raiva até mesmo pelo fato de caras como esse rapaz de rua não estarem nos abrigos destinados a eles.
Mas quem se importa, não é mesmo? Quem fiscaliza? Não é comigo, então tudo bem. Né?

Em algum momento alguém leva da sociedade um tapa na cara. Hoje fui eu. E talvez outros também que passaram por aquele moço. Ninguém imagina levar uma cuspida de um mendigo, até levar.

Ninguém imagina que essas pessoas, mais do que se sentirem humilhadas e tristes, também são revoltadas.
Se eu não tivesse sido agredida, talvez eu não tivesse pensado em fazer alguma coisa, como eu penso agora. A culpa é sim do Estado, mas a culpa é também de todos nós, passivos, meus amigos.


Cuidado, ao saírem na rua.
E levem lencinhos Kleenex. Como produtora (prevenida) que fui e que sou, sempre tenho na bolsa. Pelo menos.

COMPARTILHE ESTE TEXTO, POR FAVOR.
Por menos cuspidas desnecessárias.

:(

Um abraço e bom resto de feriado.
Daniela Hinerasky.

 

P.S.: ESSA FOTO EU TIREI MINUTOS ANTES do episódio, NO VIADUTO TIRADENTES, entre a Silva Só e a Mariante. 

2 Comments to O dia em que um morador de rua cuspiu na minha cara

  1. Beto Galetto
    09/02/2013 22:11

    Ótima reflexão Dani. Pena que tenha sido a partir de uma situação tão chata quanto essa.

    :*

  2. Adriane
    13/02/2013 12:47

    Revoltante, principalmente nestas épocas que o povo só pensa em festa e não enxerga a vergonha que está a politica no país. Motivo nenhum para comemorar.

Leave a Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Protected by WP Anti Spam
  • Arquivos